O Globo- 9/Fevereiro/2010
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| 1 Para Celso Amorim, chances de acordo ainda não acabaram
Embaixador do Irã elogia brasileiros por não adotar "política colonizadora".
Eliane Oliveira
BRASÍLIA. O governo brasileiro não vê, pelo menos por enquanto, qualquer ilegalidade na decisão do Irã de elevar para 20% o grau de enriquecimento de urânio. Segundo um alto funcionário, os iranianos asseguram que seu programa nuclear é voltado para fins medicinais, agricultura e produção de energia. Esta é a pré-condição para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em maio deste ano deverá ter o terceiro encontro com Mahmoud Ahmadinejad, em Teerã, mantenha a defesa do país pelo direito à exploração da energia nuclear.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que o Brasil continua atuando em favor de um acordo diplomático entre o Irã e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
— Não estão esgotadas as possibilidades de um acordo nos moldes do que foi proposto pela AIEA — disse o ministro.
Ontem, o embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh, reafirmou que o governo de Teerã espera que o Brasil permaneça como seu aliado. Shaterzadeh também garantiu que o país tem tecnologia e competência técnica suficientes para enriquecer o urânio a um nível ainda maior de graduação.
Ele destacou ainda que o Brasil, ao contrário de outros países ocidentais que reagiram à notícia, “não pensa em colonizar outro país.
1a Falta vontade/Opinião
RUBENS BARBOSA
Nunca houve na história deste país um momento em que a politização das decisões nas negociações comerciais externas tenha sido tão intensa, influenciada pelo Itamaraty e a reboque da política externa brasileira.
A politização das decisões nas negociações comerciais, contudo, não é uma excentricidade brasileira.
Até o começo dos anos 60, por mais de uma década, o Departamento de Estado, o equivalente do Itamaraty nos EUA, era responsável pela condução das negociações relacionadas com comércio exterior e investimentos, e pelo acompanhamento dos acordos comerciais.
Em 1962, por razões de política externa, o presidente Kennedy pediu ao Congresso a redução das barreiras tarifárias no comércio com a Europa, em rápido processo de integração econômica.
Como era de esperar, houve forte reação não só do setor produtivo e exportador, como também do Congresso, em vista da prevalência de considerações de natureza de política e não do estrito interesse comercial.
Nos EUA, ao contrário de outros países, inclusive o Brasil, a competência para legislar sobre comércio exterior é do Congresso, e não do Executivo.
Dessa forma, contra a vontade do Executivo, na época, presidido por John Kennedy, o Congresso aprovou o “Trade Expansion Act”, de 1962, que determinava que o presidente nomeasse um representante especial que conduzisse as negociações comerciais, de modo não politizado e sem a influência do Departamento de Estado.
Em 1963, esse representante comercial ganhou mais peso e acabou vinculado à presidência da república, com status ministerial, com a criação do USTR. Sucessivas modificações, ao longo dos últimos 40 anos, definiram a competência do órgão, que conta hoje com cerca de 200 funcionários e coordena 17 Ministérios e agências governamentais.
Legislação mais recente, de 1984, atribuiu ao USTR responsabilidades adicionais para formular e coordenar a execução de políticas relacionadas com o comércio de serviços, a coordenação de políticas comerciais com outros ministérios e para atuar como o principal porta-voz para a política de comércio internacional. É ainda o principal assessor do presidente para a coordenação dos interesses de outras áreas do governo nas negociações internacionais de comércio e de investimentos.
O exemplo dos EUA é relevante quando se examina essa questão no Brasil.
A queda de mais de 20% no comércio exterior brasileiro em 2009 não pode ser atribuída apenas à recessão internacional e à desaceleração do consumo de produtos brasileiros nos mercados. A falta de uma política voltada para o comércio exterior talvez seja a causa principal.
Ao contrário de muitos países, no Brasil, não há um ponto focal para a defesa dos interesses do setor exportador, que se ressente da falta de um comando unificado e de um processo de coordenação mais efetivo entre os diferentes ministérios.
A Camex, que seria o órgão competente para discutir e aprovar recomendação ao presidente para uma política que envolva todo o governo e seja executada de forma coordenada, não tem força política para propor, muito me nos para administrar ações concretas de apoio ao setor. Não se trata de falta de competência ou de capacitação do órgão para a tarefa, mas sim de inexistência de vontade política do Executivo para reformar o processo decisório, como foi feito nos EUA.
Será importante que o setor de comércio exterior se manifeste publicamente a favor de mudanças profundas no processo decisório, para fortalecer a Camex. A existência de um comando unificado com efetivo poder de coordenação pela criação da presidência da Camex, em nível ministerial, separada do MIDC e subordinada diretamente ao presidente da república, poderia ser uma alternativa.
A campanha presidencial oferece uma ampla possibilidade para o engajamento direto dos candidatos em relação a essa questão. Tendo em vista os interesses burocráticos envolvidos, somente a participação direta e a vontade política do presidente eleito poderão, em inicio de mandato, ter a força e a liderança necessárias para uma reforma dessa natureza.
RUBENS BARBOSA é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp.
1b EUA e França: sanções são a única saída contra o Irã
Os Estados Unidos e a França elevaram a pressão sobre o Irã ontem, depois de o governo Ahmadinejad comunicar formalmente à agência de energia nuclear da ONU que inicia hoje o enriquecimento de urânio a 20%. O Irã anunciou também a construção de dez novas usinas nucleares até 2011.
O secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, e o chanceler francês, Bernard Kouchner, concordaram, em reunião em Paris, que as sanções são o único caminho que resta. Já o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que não crê que estejam esgotadas as possibilidades de acordo com o Irã.
'O único caminho que resta'
EUA e França aumentam pressão por sanções após Irã anunciar novo passo em programa nuclear.
Os Estados Unidos e a França afinaram ontem o discurso em relação ao Irã, indicando que as sanções podem ser o único caminho que restou para frear o programa nuclear do país.
As declarações vieram depois de o Irã comunicar formalmente ontem, em carta à agência nuclear da ONU, que inicia hoje o enriquecimento de urânio a 20%. O país anunciou ainda a construção de dez novas usinas para 2011. As medidas alarmaram a comunidade internacional, que teme que o material seja usado para a produção de bombas nucleares.
Além disso, o Irã está reforçando a sua capacidade militar: dois dias depois de anunciar a fabricação de dois novos mísseis, o governo declarou que vai construir um sistema de defesa antiaérea superior ao da Rússia, que tem se negado a vender armamento ao antigo parceiro comercial.
— A única coisa que podemos fazer, lamentavelmente, é aplicar sanções, já que as negociações não são possíveis — disse o ministro do Exterior francês, Bernard Kouchner, que classificou o anúncio iraniano como “uma chantagem”.
— O único caminho que nos resta, me parece, é o da pressão. Isso requer que toda a comunidade internacional aja junto — declarou o secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, que se reuniu em Paris com Kouchner
Nível seguinte levaria um semestre
Numa trajetória marcada por discursos contraditórios, a decisão iraniana veio após um fim de semana em que o país se dizia otimista com as conversas com a Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA). Mas, ontem, o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, contou que comunicara à AIEA que o país começará a enriquecer urânio a 20% para um reator de uso médico.
— Até agora não recebemos resposta de nossa proposta. Não podemos deixar hospitais e pacientes que esperam desesperadamente os isótopos radioativos — disse.
O Irã já enriquece urânio a 3,5%.
Embora o material para uma ogiva nuclear tenha que ser enriquecido a 90% ou mais, chegar a 20% marca um grande passo. Enquanto enriquecer a 20% levaria um ano usando as duas mil centrífugas da usina de Natanz, um passo seguinte, como passar de 20% para 90%, levaria apenas um semestre e utilizaria de 500 a mil centrífugas, dizem especialistas.
— Seria boa parte do caminho para urânio em nível de armamento — afirmou David Albright, do Instituto para Ciência e Segurança Internacional, em Washington.
O anúncio aumentou a pressão por sanções mais fortes por parte dos governos de EUA, França e Rússia.
Em Paris, Gates disse que os dois países “concordavam completamente” na posição a adotar. Uma fonte afirmou ainda que Gates e o presidente Nicolas Sarkozy defenderam sanções mais fortes.
Em Moscou, o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara baixa do Parlamento, Konstantin Kosachyov, disse que a comunidade internacional deveria se preparar para “medidas sérias”. Entre as principais potências, apenas a China — que tem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU — se opõe claramente às sanções.
Ao mesmo tempo, o Irã tenta aprimorar a capacidade militar, incluindo um sistema antiaéreo — “tão poderoso quanto o S-300” russo — e a fabricação de aviões não tripulados.
— Os dois aviões não tripulados, o Raad e o Nazir, são capazes de vigilância, detecção e ataques de alta precisão — anunciou, ontem, o ministro da Defesa, Ahmad Vahidi.
Alguns especialistas, porém, mostraram dúvidas sobre a possibilidade da construção das dez usinas, destacando a dificuldade de obter componentes com as sanções já existentes.
1c Economia pós-crise ameaça reações
Apesar da crescente ameaça de novas sanções econômicas contra o regime iraniano, a fragilidade atual das economias americana e europeias, que tentam se recuperar da crise econômica, pode dificultar a aprovação de um novo pacote de medidas contra o Irã.
Segundo relatório do Ministério das Relações Exteriores de Israel, o comércio bilateral entre a União Europeia e o Irã caiu 31% no primeiro semestre de 2009 em relação ao mesmo período do ano anterior. Mas, nos últimos dois anos, as relações entre Europa e Teerã movimentaram G60 milhões.
O documento, obtido pelo portal Ynet, mostra que, nos seis primeiros meses de 2009, as importações e exportações entre Europa e Irã chegaram a pelo menos G10 milhões. A desaceleração, no entanto, seria fruto da crise econômica mundial e não de uma política linha-dura contra o regime dos aiatolás.
Analistas acreditam que a pressão de indústrias locais deve colocar na berlinda qualquer manobra política contra os iranianos, dificultando a aprovação de novas sanções — cujo significado seria um rombo nos lucros de empresas europeias.
1d Festa e tensão
Governo ameaça reprimir protestos no aniversário da Revolução Islâmica
TEERÃ. O aniversário da queda do regime iraniano em 1979 — dez dias após a volta do aiatolá Khomeini de 15 anos de exílio — costuma ser marcado por grandes paradas em Teerã, lembrando a Revolução Islâmica. Mas este 31º aniversário, a ser comemorado na quinta-feira, promete ser diferente.
Ele vem sendo marcado por uma tensa expectativa, com críticos convocando manifestações contra um governo ao qual acusam de trair os ideais islâmicos, e a cúpula que dirige o país ameaçando reprimir duramente os protestos.
De certa forma, os iranianos parecem disputar o legado de Khomeini. O país tem vivido — e reprimido — protestos constantes desde a reeleição, em junho passado, do presidente Mahmoud Ahmadinejad. Para a oposição, os resultados foram fraudados, e os líderes opositores Mir Houssein Mousavi e Mehdi Karoubi pretendem realizar protestos em massa depois de amanhã, dia considerado o clímax das celebrações pelo aniversário da revolução.
O governo, no entanto, prometeu “um tapa na cara” dos inimigos do país se as manifestações se concretizarem. O governo acusa os opositores de serem apoiados por governo estrangeiros.
1e França reforça exigência para cidadania
Além de assinar documento, imigrantes deverão fazer cursos de formação cívica e do idioma.
Deborah Berlinck Correspondente
PARIS. O que é ser francês? Para responder a esta pergunta, a França está mergulhada há três meses num debate acalorado e polêmico, que começou a tomar forma em medidas anunciadas ontem pelo governo. Entre elas: todas as escolas terão de alçar a bandeira no dia nacional do país (14 de julho); os estrangeiros naturalizados deverão assinar um contrato em que se comprometam com direitos e deveres da cidadania, além de jurar obededecimento ao documento numa cerimônia; e o ensino cívico nas escolas será reforçado.
Bandeira deverá ser alçada em escolas no 14 de Julho É o retrato de uma França em crise de identidade — ao menos aos olhos do governo. Após uma maratona de 350 reuniões e um debate que mobilizou 58 mil contribuições de franceses pela internet, o premier François Fillon propôs as medidas ontem numa reunião ministerial: — A bandeira tricolor deverá ser alçada em cada escola, e a Declaração dos Direitos Humanos e do cidadão de 1789, nossa referência republicana, deve estar presente em cada classe.
Mas, como descreveu ao jornal “Le Monde” o historiador Olivier Le Cour Grandmaison, “a montanha pariu um rato” e “não são estas medidas que vão mudar alguma coisa”.
Algumas iniciativas não foram confirmadas, como a proposta pelo ministro da Imigração, Eric Besson, de obrigar todos os estudantes a cantarem “A Marselhesa”, o hino nacional, ao menos uma vez por ano. O ensino do hino e de sua história é obrigatório desde 2005 nas escolas maternais e no primário.
Mas, o debate não acabou. O premier anunciou a criação de uma comissão de parlamentares e intelectuais para propor novas medidas e ajudar a implementar as decididas ontem. Não é por acaso que a França vem apertando o cerco contra o véu islâmico.
Na semana passada, o governo rejeitou a nacionalidade a um estrangeiro que obrigava a mulher francesa a usar burca, alegando que isso ia contra dois princípios básicos: laicidade e igualdade entre os sexos.
O governo agora propõe reforçar o “contrato” de integração dos estrangeiros, um documento que, desde janeiro de 2007, deve ser assinado quando se obtém permissão para viver na França por um longo período.
O estrangeiro deve se submeter a um dia de formação cívica; passar um dia num seminário sobre “como viver na França” e aprender o idioma (caso tenha fracassado no teste). Agora, como reforço, o nível de exigência de francês vai aumentar e as escolas vão se converter em centros educativos para os pais de estrangeiros naturalizados.
1f Costa Rica elege mulher presidente
Governista, Laura Chinchilla venceu no primeiro turno, com 46,7% dos votos.
SAN JOSÉ. Depois de votar no domingo confiante de que seria vitoriosa em primeiro turno, Laura Chinchilla, a candidata à Presidência da Costa Rica pelo Partido Libertação Nacional (PLN), do atual governo, teve ontem a confirmação de que será a primeira mulher a comandar o país. Com 95,5% das urnas apuradas, a dirigente recémeleita detinha na noite de ontem 46,7% dos votos, enquanto Ottón Solís, do Partido Ação Cidadã, somava 25,1%, e Otto Guevara, do Movimento Libertário, tinha 20,8%, segundo o site do Tribunal Supremo Eleitoral.
Combate à insegurança é promessa de governo Declarada a vitória — a lei eleitoral do país prevê que um candidato é considerado vencedor na primeira rodada quando seus votos ultrapassam 40% —, Laura Chinchilla disse ontem em entrevistas a TVs que seu primeiro compromisso com os costa-riquenhos será “o ataque à insegurança dos cidadãos”, acrescentando que terá como maiores desafios “a criminalidade, a violência e o narcotráfico”.
— A América Central pode ser o último campo de batalha da guerra que se vive na Colômbia e no México.
Devemos levantar a guarda e tratar de resgatar a tranquilidade — disse a presidente eleita, uma cientista política de 50 anos que ontem à tarde viajou ao povoado de Cartago, a 22km da capital, para visitar uma basílica e depositar flores nos túmulos de seus avós.
A violência se evidencia no país, por exemplo, pela alta taxa de homicídios: entre 1992 e 2009, a quantidade subiu de 4,4 assassinatos por cada cem mil habitantes para 11,1. Laura Chinchilla enfatizou ainda que outra meta de seu governo será o desenvolvimento econômico e social, oferecendo-se para dialogar “séria e permanentemente com a oposição, todos os partidos políticos e setores sociais”. Nos próximos dias, ela pretende se reunir com o atual presidente, Óscar Arias, de seu partido.
Ontem, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, telefonou à presidente eleita para parabenizá-la. Segundo comunicado da entidade, Insulza elogiou a “solidez e confiança do sistema eleitoral costa-riquenho”, que permitiu que os resultados fossem conhecidos rapidamente.
1g Tymoshenko se nega a reconhecer derrota eleitoral
Lisura da vitória de Yanukovich é atestada por observadores.
KIEV. Num resultado que reaproxima o governo de Kiev da influência de Moscou, o candidato da oposição, Viktor Yanukovich, foi eleito ontem, o novo presidente da Ucrânia com uma vantagem de apenas 2,65 pontos percentuais sobre sua adversária, a primeira-ministra Yulia Tymoshenko — que não reconheceu a derrota no segundo turno.
Apesar dos temores de uma nova onda de protestos como os que sucederam as eleições de 2004, quando a oposição comandada por Viktor Yushenko chegou ao poder na chamada Revolução Laranja, observadores internacionais garantem que o pleito foi transparente.
Durante todo o dia, membros da Organização e Cooperação da Europa, que monitoraram a legalidade da votação, pediram à candidata derrotada que cumprimentasse o rival e assumisse publicamente o fracasso nas urnas.
Mas, Tymoshenko decidiu manter o silêncio e cancelou pelo menos duas entrevistas coletivas enquanto seus simpatizantes denunciavam fraudes na votação.
Somente hoje ela deve se pronunciar oficialmente.
Yanukovich defende russo como segunda língua oficial Para analistas, o resultado mostra que os ucranianos rejeitaram as políticas democráticas e pró-Ocidente fracassadas na Revolução Laranja. Outro problema é a divisão interna da Ucrânia, onde nas áreas leste e sul a população votou em massa em Yanukovich, enquanto nas regiões norte e oeste, prevaleceu o apoio à primeira-ministra.
A participação, de 69,43% do eleitorado, foi superior à do primeiro turno.
Ao contrário do atual governo da Revolução Laranja, que buscou uma imagem democrática e independente, numa ruptura com as heranças deixadas pela ex-União Soviética, o novo presidente eleito representa tudo o que os ucranianos abominavam há cinco anos: a parceria com Moscou e o estabelecimento do russo como segunda língua oficial do país, junto ao idioma ucraniano.
Yanukovych, de 59 anos, também concorreu em 2004, quando fraudes favorecendo sua candidatura viraram o estopim de violentos protestos. Ele já foi premier duas vezes, de 2002 a 2004, e de 2006 a 2007. Em novembro, numa visita ao Kremlim, defendeu “a parceria histórica” com Moscou e apoiou os planos do presidente russo, Dmitri Medvedev, de criar um novo órgão de segurança na Europa para destituir a Otan.
1h Médicos de Néstor Kirchner desmentem AVC
Janaína Figueiredo Correspondente
BUENOS AIRES. Os médicos que operaram o ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner no último domingo afirmaram que ele está evoluindo de forma “satisfatória” e tem todos os parâmetros vitais normais. Desmentindo rumores da imprensa local indicando que Kirchner teria sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) em consequência da obstrução da carótida direita, o cirurgião Víctor Caramutti, chefe da equipe médica que o operou, explicou que a cirurgia foi feita justamente para evitar um AVC.
— É como estar um pouco à frente dos acontecimentos. É como quando operamos um paciente do coração para evitar um infarto — assegurou.
O cirurgião disse ainda que a patologia é provocada por fatores como estresse, sedentarismo, tabagismo e hipertensão.
O ex-presidente deve permanecer em observação entre 48 e 72 horas na UTI.
Segundo colaboradores, Kirchner viveu dias de extrema tensão desde a eclosão do escândalo da compra de US$ 2 milhões em outubro de 2008, no auge da crise financeira, revelado pelo jornal “Perfil”. O caso agravou a crise entre a Casa Rosada e o expresidente do Banco Central, Martin Redrado. Na semana passada, ele confirmou a operação e disse ter adquirido os dólares para comprar um hotel na província de Santa Cruz.
BAQUE
A CIRURGIA de emergência por que passou o ex-presidente Kirchner enfraquece o plano de governo compartilhado e de sucessão “dinástica” do casal K na Argentina.
SEU PAPEL de cacique peronista e aspirante a voltar à principal poltrona da Casa Rosada depende de sua rápida e completa recuperação.
1i Embaixador critica 'proposta exótica
Diplomatas e acadêmicos discordam de criação de órgão sugerida pelo PT.
Bernardo Mello Franco
BRASÍLIA. A proposta de criação de um Conselho Nacional de Política Externa, defendida em documento oficial do PT, foi contestada por diplomatas, acadêmicos e até pelo petista Eduardo Suplicy (SP), que presidiu a Comissão de Relações Exteriores do Senado no início do governo Lula. Ele disse ser contrário à criação de novo órgão federal com poderes paralelos ao Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty não quis comentar o projeto, que foi antecipado ontem pelo GLOBO e será votado no IV Congresso Nacional do PT, entre os dias 18 e 21.
Para Suplicy, um conselho com a participação de ONGs, sindicatos e movimentos sociais poderia servir como fórum de discussão, sem ditar linhas para a política externa: — Não pode ter caráter deliberativo.
Se tiver atribuições apenas de debate e reflexão, não vejo problema. Mas o presidente da República é quem tem legitimidade para dar diretrizes para a política externa do país.
O embaixador Rubens Barbosa, que chefiou as missões brasileiras em Londres e Washington, disse que a criação do conselho representaria uma interferência indevida na diplomacia.
— É uma ideia exótica, que não existe em lugar algum do mundo e deve ser cortada pela raiz. A política externa deve servir ao Estado, não ao partido que está no poder. A diplomacia existe para defender interesses do país.
A proposta foi criticada pelo professor Virgílio Arraes, do Instituto de Relações Internacionais da UnB: — Não vejo razão para criar novo órgão com essa finalidade.
O Brasil tem um número razoável de espaços para a discussão da política externa, inclusive nas universidades públicas. A criação de um novo órgão pode dispersar esse debate.
1j Subjugação/Editorial
Na terceira versão do programa de defesa dos direitos humanos, foi aplicado o método de se convocar assembleias país afora para colher sugestões; e, quando veio a reação contra a revogação da Lei da Anistia, a instituição de sistema de coerção sobre a imprensa, entre outras aberrações contrabandeadas para o programa, o assembleísmo terminou defendido no governo como capaz de dar grande legitimidade às propostas.
Um engano, pois estas assembleias e conselhos servem apenas para congregar companheiros de mesma ideologia, em busca de canais de pressão não institucionais.
Sabem que são minoritários na sociedade, por isso tentam atuar de forma direta nos centros de decisão — manobra facilitada quando há aliados nestes centros.
Padece do mesmo vício a proposta do PT de criação do Conselho Nacional de Política Externa, pelo qual ONGs, “movimentos sociais” e similares passariam formalmente a influenciar a diplomacia brasileira. É um passo a mais na cultura do assembleísmo e da subordinação do Estado a interesses partidários, de grupos, de corporações sindicais e lobistas de toda ordem.
A ideia parece ser instituir o que na gestão Lula já acontece por meio do assessor presidencial para política externa, Marco Aurélio Garcia, uma espécie de “Itamaraty do B”, um braço autônomo ligado a frações do PT e ao qual se subordina, em certa medida, o Ministério de Relações Exteriores.
Deste núcleo, ao qual se alinha o novo ministro de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, secretáriogeral do Itamaraty até há pouco, emanam as temerárias ações de pedigree chavista e terceiromundista, causa de embaraços diplomáticos junto ao Primeiro Mundo. Criado o tal conselho, firma-se a subjugação do Itamaraty a grupos políticos organizados, e extingue-se a capacidade de influenciar de um dos segmentos historicamente mais profissionais do Estado brasileiro.
E avançará o projeto de criação de mecanismos de democracia direta, maneira de marginalizar o Congresso e revogar na prática o regime de democracia representativa, estabelecido na Constituição.
Em outras palavras, um golpe — desfechado de forma lenta, mas um golpe.
1k Chance para as vítimas/Opinião
ANDRÉA PACHÁ
Logo após o terremoto que arrasou o Haiti e expôs ao mundo as vísceras de um país já devastado pela miséria e violência, formou-se uma rede de ajuda que, contrariando os mais pessimistas em relação aos sentimentos humanos, mobilizou países e indivíduos com uma intensidade e abrangência poucas vezes vistas.
Em meio a essa inédita comoção global, abriu-se o espaço para um movimento pela adoção de crianças haitianas.
Países como a França, Holanda e Estados Unidos propuseram a aceleração dos processos de adoção.
Também no Brasil a procura pela adoção tem sido grande.
Até a semana passada, mais de 600 pessoas já haviam se interessado pela adoção internacional de crianças haitianas.
A adoção internacional é um caminho possível e mesmo indicado quando as instituições funcionam bem e se pode garantir às crianças não apenas um acompanhamento adequado, mas também a segurança nos processos. Mas, em que pese certas situações de emergência, nem assim esse é um caminho que deva ser acelerado.
Fez muito bem o Comitê dos Direitos da Criança da ONU em advertir sobre os sequestros que podem estar sendo encobertos pela adoção no Haiti.
Os riscos de tráfico de órgãos e exploração sexual, lamentavelmente, não são elementos de teorias conspiratórias.
O Judiciário brasileiro tem compreendido a dimensão dos direitos das crianças órfãs ou em situação de abandono.
Não é por outro motivo que a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) promove campanhas regulares e específicas com o objetivo de estimular e orientar os processos de adoção.
Esse esforço é sempre na linha de encontrar um final feliz permanente, tanto para as famílias candidatas quanto para as crianças ou adolescentes disponíveis (para não dizer abandonados) em abrigos.
Na mesma direção, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), antecipandose à nova Lei de Adoção, promulgada no ano passado, criou e pôs em funcionamento o Cadastro Nacional de Adoção, ferramenta indispensável para dar mais celeridade e transparência aos processos.
A nova Lei de Adoção brasileira determina que se busque, primeiro, a inserção da criança ou adolescente junto à sua família biológica, depois, que se tente inseri-la em família substituta na própria cidade, ou no estado, ou no país e, apenas na falta destas possibilidades, que se faculte a adoção a estrangeiros.
Isto não ocorre por apego burocrático, mas pela compreensão de que, para uma criança, a possibilidade de crescer junto dos seus pares, no seu contexto cultural e social, é sempre uma ruptura menor.
Se o critério fosse apenas econômico e material, esta escolha não passaria de uma iniquidade.
Na dor se pode aprender, mas na dor não se deve ensinar. No caso específico do Haiti, ainda não há, de fato, possibilidade de verificar o histórico familiar e pessoal das crianças neste momento. Qualquer deslocamento pode ser traumático e se transformar em nova ruptura adicional àquela sofrida por ocasião do desastre natural.
Dá o que pensar o número crescente de candidatos, no Brasil, à adoção de crianças haitianas. Não há escala Richter para comparar dor e sofrimento.
Dores são dores e o abandono é sempre um abandono, quer causado pela violência da natureza ou por outros tipos de violência, inclusive o desamor dos pais biológicos.
Há, hoje, no Brasil, 4.390 crianças e adolescentes disponíveis para adoção.
Vítimas de outros tremores, esperam a chance de serem acolhidos por uma família que lhes dê o afeto e as condições de vida de que estão privados.
ANDRÉA PACHÁ é juíza do TJ-RJ e ex conselheira do CNJ responsável pela implantação do Cadastro Nacional de Adoção.
1l Correios mudam nome e miram mercado internacional
Após carnaval, governo enviará MP ao Congresso para reestruturar ECT, que vai atuar em EUA, Europa e Japão.
Chico de Gois e Mônica Tavares
BRASÍLIA. O governo enviará ao Congresso, logo depois do carnaval, uma medida provisória (MP) modernizando e reestruturando a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). O texto também modificará a Lei Postal, editada em 1978. Um dos principais objetivos das mudanças é a internacionalização dos Correios, que vão poder atuar principalmente em países como Estados Unidos, Portugal, Espanha, Inglaterra e Japão, para que os brasileiros que lá residem possam fazer remessas para o Brasil, por exemplo.
A nova empresa se chamará Correios do Brasil S.A.
e será uma sociedade anônima, com capital fechado, nos moldes da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
— Esta reestruturação vai permitir que os Correios tenham uma ação mais presente no exterior, principalmente visando à captação das remessas de valores dos brasileiros no exterior, que chegam anualmente a US$ 6 bilhões — afirmou o ministro das Comunicações, Helio Costa, que reuniuse ontem com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O ministro disse ainda que os Correios já transferem tecnologia para vários países da América do Sul, entre eles a Argentina, o Chile, o Paraguai e a Colômbia. Com a internacionalização, a troca será mais efetiva.
O objetivo é dar condições de competição aos Correios e, segundo Helio Costa, isto permitirá que o faturamento da empresa aumente em 50% em um prazo entre 18 e 24 meses. A receita anual da ECT é de R$ 12,5 bilhões, atualmente.
— A MP deverá dar aos Correios flexibilidade para que ele possa se modernizar e, certamente, estar em condições de competir principalmente com as empresas estrangeiras do setor — afirmou Costa.
A legislação permitirá ainda que os Correios atuem em outras frentes, entre elas a de prestação de novos serviços.
Um deles é o Correio Híbrido — correio digital —, pelo qual os planos do governo são transformar a ECT em um dos maiores provedores de serviços de internet.
A proposta dos Correios é entrar mais fortemente no setor de comércio eletrônico, que tende a crescer cada vez mais.
Outro ponto previsto nesta mudança é a possibilidade de formação de Parcerias PúblicoPrivadas (PPPs) na área de transporte aéreo e logística dos Correios, entre eles a parte de aviação, com a Rede Postal Noturna (RPN). A RPN movimenta, em média, 650 toneladas por ano de cargas, percorrendo cerca de 47 mil quilômetros diariamente.
Banco Postal deve ser reforçado na nova estrutura Atualmente, quando os Correios fazem os contratos para o transporte, estão limitados a um ano, o que encarece o serviço.
O mercado de leasing de aviões é de cinco anos.
— Para fazer o leasing de um avião, se o prazo é de um ano é um preço. Se são cinco anos, é 30% desse preço — completou o ministro das Comunicações.
Operado hoje pelo Bradesco, o Banco Postal também deverá ser reforçado por estas modificações. Esta associação dá um rendimento de aproximadamente R$ 250 milhões, contou Costa. Mas ressaltou que a ECT quer usar a estrutura para outros negócios, como vender seguros e chips de telefone celular, que hoje não são feitos.
Hoje o Banco Postal tem sete mil agências em todo o país, com 9,2 milhões de contas e uma movimentação de R$ 40 bilhões.
— O que pretendemos fazer é estarmos preparados para uma nova negociação (com o Bradesco) a partir do ano que vem, porque o contrato vigente termina em 2011 — explicou Helio Costa.
O ministro das Comunicações disse que foi feita uma negociação com a Frente Parlamentar da área postal e acredita que não haverá dificuldade na aprovação da medida provisória. O texto também é assinado pelos ministros da Fazenda, Guido Mantega, do Planejamento, Paulo Bernardo, e da Casa Civil, Dilma Rousseff. A medida provisória, lembrou Costa, é resultado de um trabalho de dois anos
1m À espera
O gráfico abaixo mostra a evolução dos preços do barril do petróleo e ilustra bem a dúvida dos investidores em relação a 2010. No primeiro semestre de 2009, houve forte recuperação nos preços, pautada pela melhora das expectativas, na medida em que o pior da crise ficava para trás. Isso fez o barril sair da casa dos US$ 30 e voltar para a casa dos US$ 70.
Desde outubro, porém, os preços estão relativamente estáveis, oscilando entre US$ 70 e US$ 83. De acordo com Luiz Otávio Broad, analista da Ágora Corretora, essa estabilidade indica que o mercado está em stand by. Ou seja, não consegue ter confiança para apostar num crescimento forte da economia mundial, que jogaria os preços para cima, mas também não quer cravar que haverá um novo ciclo de recessão.
— O mercado está sem direção — conclui Broad.
1n Investidores usaram F 7,6 bilhões no maior ataque contra moeda europeia
Temor sobre aumento do endividamento dos Piigs põe euro em xeque.
Felipe Frisch*
Investidores e fundos hedge apostaram C 7,6 bilhões contra o euro, no maior ataque especulativo contra a moeda comum europeia desde que ela foi lançada, em janeiro de 1999, revelou ontem o “Financial Times”.
A aposta recorde contra o euro registrada na semana até 2 de fevereiro aparece nos dados mais recentes da Bolsa Mercantil de Chicago, usada como parâmetro para os investimentos de fundos hedge, carteiras agressivas que procuram oportunidades em diferentes mercados.
De acordo com o jornal britânico, o volume de posições líquidas acreditando na queda representa mais de 40 mil contratos contra a moeda europeia.
Nessas operações, os investidores assumem o compromisso de vender a moeda europeia a um prazo e valores determinados, mesmo sem tê-la, apostando na sua queda, portanto. Isso sugere que os investidores estão perdendo a confiança de que o euro irá resistir ao contágio dos problemas fiscais dos países europeus endividados. Estes formam o bloco apelidado de Piigs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, na sigla em inglês).
A ministra de Finanças da Espanha, Elena Salgado, e seu vice, José Manuel Campa, se reuniram ontem com investidores em Londres, para tentar desmontar os temores quanto à dívida pública do país, apresentando o programa de austeridade fiscal, que pretende reduzir o déficit (o quanto as despesas de um governo superam suas receitas) de 11,4% do PIB (soma de bens e serviços produzidos) no ano passado, para 3% até 2013.
Alemanha e França devem pagar conta, diz analista O aumento do temor sobre o endividamento dos Piigs começou a levantar a discussão a respeito da sobrevivência do euro, hoje usada por 16 dos 27 países da União Europeia. A dúvida de analistas toca na falta de sustentação de se ter apenas uma política monetária (de inflação e taxa de juros) e diferentes políticas fiscais entre os países ao mesmo tempo. Antes da moeda única, uma crise de endividamento poderia ser combatida com desvalorização da moeda e austeridade fiscal.
A dificuldade estaria em convencer os demais países em desvalorizar o euro para baixo do US$ 1,37 atual. Por outro lado, dificilmente os endividados elevarão impostos em meio às elevadas taxas de desemprego, que já chegam a 19,5% na Espanha.
O estrategista do banco WestLB, Roberto Padovani, lembra que o Tratado de Maastricht, assinado em 1992, dá limite de 3% para o déficit nominal (considerando despesas com juros) dos países da zona do euro. O tratado também dá medidas para forçar os países desenquadrados a convergirem para a meta. Mas ainda não se fala em expulsar estes países do bloco.
Para ele, Alemanha e França, em melhor situação no bloco, devem pagar a conta, financiando a dívida dos vizinhos. O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, avalia que a medida pode criar conflitos: — A Alemanha tem déficit de 5%. Para emprestar 0,5% do PIB, vai tirar emprego dos alemães para o grego ter. Como você vai convencê-lo a isso? O economista-chefe da corretora Ágora, Álvaro Bandeira, pondera que é justamente a existência de uma moeda única com alguns países fortes por trás que impede um maior ataque especulativo contra os endividados, o que poderia de fato quebrá-los.
— Se Portugal estivesse usando o escudo ainda, estaria sofrendo muito mais. Não é possível fazer um ataque especulativo contra só um país do bloco — diz Álvaro.
Para o diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carlos Langoni, o euro é irreversível.
Ele considera curioso que, pouco antes da crise estourar, em 2008, quando o dólar estava se desvalorizando no mercado internacional, falava-se que o euro substituiria a divisa americana: — Com todos os problemas, o dólar continuará sendo a reserva de valor da economia globalizada, pois está associado a um só país com estabilidade políticoinstitucional reconhecida.
1o Bovespa sobe 0,62% e recupera 63 mil pontos
Após três altas seguidas, dólar cai 0,90% e fecha a R$ 1,874. Dow Jones recuou 1,04%.
Mariana Schreiber*
Num dia sem indicadores econômicos relevantes nos Estados Unidos ou novidades sobre a delicada saúde financeira de países europeus, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encontrou espaço para recuperar ontem parte da queda de 4,03% acumulada na semana passada.
Acompanhando a alta das commodities e a recuperação das bolsas europeias, o Ibovespa, principal indicador brasileiro, chegou a subir 1,84%, mas esbarrou na instabilidade do mercado americano e fechou com ganho de 0,62%, a 63.153 pontos.
O volume de negócios ficou em R$ 8,422 bilhões, inflado pelo vencimento de opções, que movimentou R$ 2,2 bilhões.
O dólar caiu 0,90%, a R$ 1,874, após três pregões seguidos de valorização. Em Wall Street, o Dow Jones recuou 1,04%, para 9.908 pontos, com temores sobre uma possível crise da dívida de países europeus. É a primeira vez desde 4 de novembro de 2009 que o índice fecha abaixo de dez mil pontos.
Para o analista Leonel Pitta, da Lopes Filho & Associados, a Bovespa se descolou do mercado americano porque caiu muito na última semana, enquanto os indicadores americanos recuaram menos de 1% no período.
— A queda da semana passada foi exagerada — disse Hersz Ferman, da Um Investimentos.
Ações da Telebrás disparam novamente A ação preferencial (PN, sem direito a voto) da Petrobras ganhou 0,70%, a R$ 31,74, e a da Vale avançou 1,10%, a R$ 41,25. O papel ordinário (ON, com direito a voto) da Fibria liderou os ganhos do Ibovespa, saltando 6,17%, após ser recomendada por Citgroup e HSBC.
Fora do Ibovespa, Telebrás continua em destaque, com a expectativa de reativação da estatal.
O papel PN disparou 14,12%, com R$ 271 milhões em volume, quarto maior do dia. A ação ON da Parmalat subiu 15% a R$ 13,68, mas com poucos negócios. Já o recibo de ação da Laep, que controla a Parmalat, avançou 9% a R$ 2,18.
1p Rio terá centro de estudos para discutir os Brics
Reunião contará com autor da sigla.
O responsável pela criação do termo Bric, sigla que junta os principais países emergentes Brasil, Rússia, Índia e China, o inglês Jim O‘Neill, economista-chefe do Goldman Sachs, estará no Rio entre os dias 22 e 23 para participar do seminário “Uma agenda para os Brics”. O encontro vai ocorrer antes mesmo da inauguração do 1º Centro de Estudos e Pesquisas dos Brics, que vai abrir suas portas em maio, na Zona Sul da cidade.
Contando com o apoio acadêmico do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, o centro é uma iniciativa da prefeitura da cidade e do Instituto Pereira Passos. A ideia do centro surgiu da necessidade de fortalecer a imagem do Rio como uma cidade global e que começa a sediar eventos internacionais, como as Olimpíadas de 2016.
— Nosso projeto é transformar este centro num pólo de pensamento de ponta e permitir uma troca de experiências entre os Brics — comentou Felipe Góes, presidente do Instituto Pereira Passos e do Conselho Municipal de Desenvolvimento Econômico.
O’Neill falará sobre a “Relevância internacional nos desafios do cenário econômico”, com o ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga, o ex-secretáriogeral do Itamaraty, embaixador Sérgio Azambuja, e o ex-diretor do Banco Central da Rússia, e atual diretor da Higher School of Economics de Moscou, Sergei Alexashenko.
Também estarão no encontro o CEO da Booz & Co., o representante do Centro de Estudos Brasileiros Academia de Ciências Sociais da China, Zhou Zhiwei, e o sócio-diretor e Fundador de The Jai Group, Rakesh Vaidyanathan.
O seminário vai ocorrer dois meses antes da segunda cúpula dos Brics, prevista para abril, no Brasil. A primeira ocorreu em Ecaterimburgo, na Rússia
1q O ‘Avatar’ do pré-sal/Nota
No meio do ano, a pesquisa da Petrobras ganhará um upgrade. Ficará pronta a duplicação do Cenpes, o centro de pesquisas da estatal, na Ilha do Fundão. As novas instalações vão turbinar as investigações sobre pré-sal, além de outras pesquisas, como de biocombustíveis. Uma das novidades é o Núcleo de Visualização Colaborativa (NVC), essa “bola” da foto. Se a primeira fase do pré-sal teve pesquisa com tecnologia convencional, o NVC oferecerá aplicativos tridimensionais.
Isso permitirá, dentro de uma sala, “caminhar imerso” em uma plataforma de petróleo que ainda será construída, vendo o que funciona na interação homemambiente, por exemplo. Com os novos laboratórios, a Petrobras terá condição de desenvolver uma operação remota, com tomada de decisões à distância, explica o gerente-executivo do Cenpes, Carlos Tadeu da Costa Fraga. Será possível ainda fazer testes reais com rochas do pré-sal num volume muito superior ao que é realizado hoje.
O Cenpes começou a estudar o présal há dez anos, quando nem se falava nisso. Enfrentou o desafio, primeiro, de enxergar onde estava o petróleo, antes de recomendar a perfuração de um poço de US$ 100 milhões. Depois, de como perfurar um sal que se movimenta.
Agora, já estuda novas fronteiras geológicas, mantidas sob sigilo. Para o consultor Adriano Pires, as novas frentes seriam mesmo no pré-sal, porque há muito o que resolver, como corrosão e excesso de gás.
Um Vale do Silício do petróleo
Não é apenas a Petrobras que cresce em pesquisa. Fornecedores, que não tinham desenvolvimento de pesquisa no país, estão se enraizando depois do pré-sal. A Schlumberger constrói uma unidade no parque tecnológico do Fundão. Baker Hughes e FMC Technologies já têm projeto. E há fila de interessados. Os fornecedores falam em um “Vale do Pré-sal”, em analogia ao Vale do Silício, na Califórnia.
A ampliação do Cenpes para 300 mil m² está custando R$ 800 milhões a R$ 900 milhões, desde 2005 — em mais instalações, pois a equipe de 1.600 não muda. A nova área inclui ainda um centro de processamento de dados da Petrobras. O Cenpes gerencia as unidades de pesquisa da estatal e um orçamento milionário. Na sala de amostras de rocha, por exemplo, aprende-se que um corte de 9 metros é retirado da Bacia de Campos ao custo de US$ 400 mil.
1r Queda/Nota
O Brasil caiu de 102º para 111º no ranking mundial de liberdade econômica, segundo o “Relatório de liberdade econômica para a América Latina 2009-2010”, feito pelo Instituto Fraser (Canadá). A pontuação caiu de 6.02, em 2007, para 6.0, ano passado (o máximo são 10). E colocou o país entre Paquistão (6.01) e Irã (5.99)
Falhas
Pesaram na piora do resultado do país falhas em dois pontos: proteção à propriedade privada e cumprimento de cláusulas trabalhistas. China, Rússia e Índia, os outros países do Bric, vêm à frente do Brasil, em 82o 83oe 86olugares, respectivamente. O relatório contou com a participação do Instituto Millenium.
1s Lula pede pressa na votação dos marcos regulatórios para o pré-sal
Deputados devem retomar a avaliação dos projetos ainda esta semana.
Luiza Damé
BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ontem, na reunião de coordenação de governo, prioridade na votação dos quatro projetos do marco regulatório do pré-sal. Segundo o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, o governo mandou para o Senado, no último dia 3 de fevereiro, o pedido de urgência constitucional para tramitação do projeto que cria a Petro-Sal e fará o mesmo quando as outras três propostas do marco do pré-sal forem aprovadas pela Câmara.
Com a urgência constitucional, o Senado tem 45 dias para votar cada um dos projetos. A Câmara precisa ainda concluir a votação do projeto que institui o regime de partilha e as propostas de capitalização da Petrobras e de criação do fundo social.
— Nós reafirmamos a prioridade na votação dos projetos do pré-sal. A Câmara deve retomar a votação esta semana e já encaminhamos pedido de urgência constitucional para o projeto do pré-sal no Senado. Vamos solicitar urgência para os demais à medida que eles chegarem ao Senado. Mas devemos ter uma reunião esta semana para definirmos um calendário, inclusive negociando com a oposição — disse Padilha.
Segundo o ministro, a reunião será acertada com o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). Padilha disse que, mesmo com a urgência constitucional, será necessário articular a tramitação dos projetos nas comissões e acertar os relatores, uma vez que o governo quer ver o marco regulatório do pré-sal aprovado este semestre para dar início aos leilões das novas áreas.
Além disso, se não for aprovada a capitalização da Petrobras, a estatal terá de rever seu plano de investimentos.
1t Débito automático dará R$ 24 milhões à Petrobras
Fornecedores da empresa também serão beneficiados.
Henrique Gomes Batista
A Petrobras anunciou que está aderindo ao Débito Direto Automático (DDA) do Banco do Brasil. Com isso, todos os pagamentos da empresa, que somam cerca de R$ 6 bilhões por mês, passam a usar o sistema, o que lhe dá mais segurança e pode lhe garantir um ganho anual de até R$ 24 milhões. Os fornecedores da estatal também serão beneficiados, pois poderão antecipar estes recebíveis a um custo bem menor.
Segundo o diretor Financeiro e de Relação com Investidores da empresa, Almir Barbassa, a meta é obter mais rapidez, segurança e confiabilidade para as operações. A estatal chega a realizar cinco mil pagamentos diários, decorrentes de cerca de 300 mil contratos com fornecedores.
— Além do DDA tornar os pagamento mais fáceis operacionalmente, em linha com as modificações como a Nota Fiscal Eletrônica, permite que casemos melhor recursos recebidos com pagamento, ou seja, sendo tudo por DDA, podemos utilizá-lo diretamente, sem perder um dia com a compensação. Ganhamos um dia por mês de CDI para R$ 6 bilhões em média — disse.
Fornecedores poderão sentir reduções de juros de 50% Como em média o CDI está com uma taxa diária um pouco acima de 0,03%, o ganho da estatal, mesmo com um percentual tão pequeno, seria de cerca de R$ 2 milhões por mês, ou cerca de R$ 24 milhões por ano. Mas Barbassa acredita que os maiores beneficiados serão os fornecedores, que poderão se capitalizar a baixíssimo custo: — Estas empresas poderão ficar melhor capitalizadas.
Não adianta apenas a Petrobras estar bem, a nossa cadeia também tem de estar bem, com capital de giro, com possibilidade de investimentos.
Allan Toledo, vice-presidente de atacado do BB, acredita que alguns fornecedores poderão sentir reduções de juros de 50% com o DDA: — O percentual depende de cada caso, mas, além disso, há a economia do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), já que o tributo não incide no adiantamento de recebíveis.
1u Telefónica e Telecom Italia negociam fusão
Empresas obtêm financiamento para operação, que será anunciada até março, dizem fontes.
Bruno Rosa
A espanhola Telefónica anunciará uma “união” com a Telecom Italia entre o fim deste mês e o início de março. Ao que tudo indica, o anúncio será feito após as operadoras divulgarem seus resultados financeiros de 2009. Segundo fontes, o grupo espanhol acertou com bancos da Europa as linhas de crédito para a operação. Além disso, os obstáculos políticos na Itália, que emperravam as negociações, foram removidos.
Por ora, há duas opções “sem ferir o orgulho italiano”. A primeira seria a criação de uma holding, que administraria as redes de Telefónica e Telecom Italia. A segunda seria estatizar a operadora italiana. No caso, a Telefónica operaria e comercializaria todos os serviços.
No Brasil, a Telefónica é dona de metade da Vivo, a maior operadora de telefonia móvel do país, e da operadora de telefonia fixa em São Paulo, a Telefônica. Já a Telecom Italia comanda a TIM, a terceira maior empresa de celular. Os rumores na Europa têm afetado as ações das companhias aqui. Ontem, na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), as ações de TIM e Vivo fecharam em alta, mas acumulam queda em 2010.
A ação ordinária (ON, com direito a voto) da TIM, que registra recuo de 4,76% no ano, fechou o dia em R$ 6,81 (mais 2,25%). Já a preferencial (PN, sem direito a voto) subiu 2,33%, a R$ 4,82, mas ainda perde 5,86% em 2010. A Vivo ON, que subiu 3%, a R$ 51,50 ontem, registra queda de 4,17% em 2010, ao passo que a Vivo PN teve alta de 2,37%, a R$ 51,40, com perda de 5,2% desde janeiro.
A fusão entre Telefónica e Telecom Italia seria ainda o início da criação na Europa da Tele Europa Sul, uma ideia antiga, que prevê a união entre Portugal Telecom, Telefónica, Telecom Italia e Deutsche Telecom.
A meta seria a redução dos custos para enfrentar a concorrência com companhias como as da Inglaterra.
Para a empresa resultante da fusão entre Telefônica e Telecom Italia, por exemplo, a participação de 86% da Telecom Italia na TIM Brasil vale mais que os 50% do grupo espanhol na Vivo.
Segundo a fonte, é essa conta que os executivos na Europa estão fazendo. Como o valor das ações das empresas estão baixos, tem se analisado os ativos, como as redes de fibra ótica.
Situação no Brasil ainda não foi definida Assim, embora não esteja nada acertado por enquanto, a possibilidade é a Portugal Telecom comprar dos espanhóis a outra metade da Vivo e depois selar uma parceria com a Oi, como já vem sendo discutido, segundo uma fonte.
— Mas ainda não há nada acertado sobre o Brasil — diz essa mesma fonte.
A Portugal Telecom, porém, tem um endividamento de C 6,85 bilhões. Além de 50% das ações da Vivo, a operadora lusa é dona de parte do portal UOL e acabou de comprar a brasileira GPTI, empresa de tecnologia da informação.
Por enquanto, diz um executivo, a PT ainda não está negociando com os espanhóis.
No Brasil, por determinação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a Telefónica não pode participar das decisões estratégicas da TIM. Ou seja, quando os membros do Conselho de Administração da Telecom Italia se reúnem, os dois representantes da grupo espanhol têm de se retirar no momento em que o Brasil passa a ser discutido.
1v Petista ataca programação de TV a cabo
Marco Aurélio Garcia diz que canais americanos realizam um processo de dominação
Bernardo Mello Franco
BRASÍLIA. Escalado para coordenar o programa de governo da ministra Dilma Rousseff, o professor Marco Aurélio Garcia anda preocupado com a influência da TV a cabo sobre os corações e mentes dos brasileiros. No sábado, o assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais discursou sobre o tema em debate na sede nacional do PT. Em meio a discussões sobre política externa, ele surpreendeu com um libelo contra o que chamou de “hegemonia cultural dos Estados Unidos”.
Marco Aurélio comparou a influência da indústria de entretenimento ao poderio bélico da 4ª Frota, a divisão da Marinha americana que atua no Atlântico Sul.
— Hoje em dia, quase tão importante quanto a 4aFrota são os canais de televisão a cabo que nós recebemos aqui.
Eles realizam, de forma indolor, um processo de dominação muito eficiente.
Despejam toda essa quantidade de esterco cultural — esbravejou.
Em tom de alerta, o assessor de Lula disse que a esquerda precisa reagir à difusão de valores capitalistas: — Estamos vivendo um momento grave do ponto de vista de uma cultura de esquerda. A crise dos valores do chamado socialismo real e a emergência desse lixo cultural nos últimos anos nos deixaram numa situação grave.
O petista também reclamou de um suposto marasmo intelectual no Brasil, comparando os dias atuais a momentos de efervescência cultural das décadas de 1930 e 1950: — Hoje vivemos uma transformação do ponto de vista econômico-social muito mais importante do que no passado. No entanto, temos um deserto de ideias, um deserto de produção cultural. Isso é um problema no qual temos que pensar.
O coordenador da campanha de Dilma disse que o Brasil foi programado para ser um país pequeno e defendeu o fortalecimento das estatais no governo Lula. Ao condenar o avanço da direita na Europa, fez uma recomendação à plateia: — Nunca subestimem a estupidez humana.
Quem subestimou a estupidez humana se deu mal na História