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Resenha de imprensa nacional

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Noticiário - Seleção Diária de Notícias Nacionais - 02/02/2009

Valor Econômico

Assunto: Brasil
Título: 1g EUA e Brasil, sócios no continente americano/opinião
Data: 02/02/2009
Crédito: Sergio Leo

Sergio Leo
Um incipiente e calado ressentimento contra o Brasil cresce em alguns países vizinhos, especialmente na Argentina. O peso da economia e a expansão dos interesses brasileiros na região agora se somam à situação relativamente mais confortável do país na crise econômica mundial. E, também, a um fator ainda pouco notado no próprio Brasil: a consolidação de um acordo tácito com o governo dos Estados Unidos, que vem levando o Brasil a ocupar o papel de potência sub-hegemônica na América do Sul.

Acumulam-se indícios de que a administração democrata nos Estados Unidos manterá, com o governo brasileiro, o bom nível de consultas políticas estabelecido pelo governo George W. Bush com Brasília. O interesse pelo Brasil extrapola a Casa Branca: logo após o Carnaval, vem ao país o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, John Kerry, o democrata derrotado por Bush nas eleições de 2004, que chegou a ser cotado para secretário de Estado de Obama.

A comissão que Kerry dirige é um dos postos-chave na política externa americana e as prioridades anunciadas por ele são, como se esperaria, o antiterrorismo e a superação da crise econômica mundial. A vinda ao Brasil é bom sinal, mostra o país no radar dos formuladores de política externa do Congresso americano. O vice de Kerry é o republicano Richard Lugar, autor de um projeto de cooperação entre Brasil e EUA em biocombustíveis e um dos maiores entusiastas do etanol no país.

Na Colômbia, foi notada a diferença de tom no telefonema quase protocolar que Obama fez ao presidente Álvaro Uribe, dias após um caloroso contato com Lula. Michele Bachelet, do Chile, também recebeu telefonema do presidente americano, numa demonstração capaz de reduzir os temores de que o novo presidente deixaria em segundo plano a América do Sul, continente que nunca visitou.

A manutenção da equipe de Bush e a decisão de segurar no Brasil o atual embaixador, Clifford Sobel, evitando que o posto fique nas mãos de um encarregado de negócios - como chegou a acontecer na gestão Bush -, também têm um lado positivo, de permitir a continuidade dos contatos e a transição suave nas relações bilaterais.

O principal interlocutor desse time de transição é o subsecretário de Estado, Thomas Shannon, diplomata experiente de bom trânsito pelos governos da região. Apesar dos atritos da Bolívia e Venezuela com o governo americano, ele sempre esteve entre as vozes moderadas do governo. Shannon seguirá no cargo até a Cúpula das Américas, em abril, e são cada vez mais fortes e generalizados em Washington os rumores de que, após o evento, será nomeado embaixador dos EUA no Brasil.

Do telefonema de Obama ao atual comando da Comissão de Relações Exteriores do senado e o reconhecimento do Brasil como principal interlocutor do continente nos fóruns multilaterais, tudo colabora para mostrar, aos vizinhos sul-americanos que o Brasil ganhou novo status internacional e consolida uma parceria com os EUA.

Se o governo brasileiro, como dizem alguns críticos, é por convicção antiamericano, não deixou a ideologia refletir-se nas relações comerciais ou de investimento. Em 2008, os Estados Unidos foram o principal destino dos investimentos brasileiros no exterior (US$ 4,8 bilhões de um total de US$ 20,5 bilhões), e os principais investidores no país (dos US$ 45 bilhões em investimento direto estrangeiro, US$ 7 bilhões vieram dos EUA).

O Brasil, beneficiado pela bolha de preços das commodities, também aumentou suas vendas aos EUA, mais que parceiros que têm acordo de livre comércio com eles, como o México. Segundo dados dos EUA, os americanos aumentaram em 22% suas compras de produtos brasileiros entre janeiro e novembro de 2008. O aumento foi de apenas 4,3% de compras do México, e 5,2% da China. Com os países centro-americanos com que têm acordo de livre comércio, o aumento foi de medíocres 3,2%.

Por tudo isso, na Argentina e na vizinhança, a paranoia sobre um possível "imperialismo" brasileiro agora se une à desconfiança de que o Brasil pode largar retórica e planos de integração sul-americana em favor da carreira solo como estrela política e econômica emergente.

O episódio ilustrativo dessa nova dimensão brasileira mais citado em Buenos Aires é o das negociações na Organização Mundial do Comércio, quando o governo argentino aferrou-se a uma obstinada posição protecionista na discussão sobre tarifas de importação para produtos industriais. Enfrentou uma forte disposição brasileira de fazer maiores concessões à Europa e aos Estados Unidos, em troca de avanços em outros setores, na negociação de liberalização comercial conhecida como Rodada Doha. Embora o governo brasileiro se dispusesse a acomodar os interesses argentinos, dentro do Mercosul, ainda há quem, no governo vizinho, reclame da "traição" do Brasil na OMC.

Não falta quem defenda, aqui, descolar o Brasil e adotar uma estratégia menos dependente das suscetibilidades dos vizinhos. Uma lista de razões é invocada para essa atitude, especialmente por uma parcela da indústria brasileira: o marasmo em que se meteu o processo de integração comercial do Mercosul, as dificuldades econômicas e o militante nacionalismo em países como Argentina e Bolívia, as resistências ao aprofundamento do livre comércio por parte dos argentinos e do Paraguai.

Para esses críticos do Mercosul e de uma liderança benevolente no continente sul-americano, a boa notícia é que o Brasil se descolou da vizinhança. Mas uma dos principais razões da boa reputação do país no exterior foi, exatamente, a construção de laços de confiança e amizade na América do Sul, mesmo quando governantes inexperientes partiram para agressões injustificadas. Se não levar seu papel sub-hegemônico em consideração, o Brasil pode descobrir, surpreso, que descuidar dos vizinhos representará abandonar, também, parte das credenciais que o consolidam como um dos polos no mundo multipolar do século XXI.
Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras